Observatório do Audiovisual Baiano

Sejam bem-vindes ao Observatório do Audiovisual Baiano. A partir de agora, neste espaço, vocês poderão encontrar informações e análises sobre o setor audiovisual baiano, de forma continuada.

Trabalhamos em parceria com o @obecbahia e, neste momento, compartilhamos com todos o primeiro fruto deste trabalho, o Boletim Temático nº 01, com o título “Análise de Rede Social da Produção de Longas-Metragens e Telefilmes da Bahia”. Nele, são discutidas as relações sociais do audiovisual baiano a partir de alguns pontos, como principais agentes, participação feminina, evolução da quantidade de filmes lançados, gênero, origem, locações, dentre outros. Confira o boletim completo aqui: https://bit.ly/audiovisualbaiano-01.

Este é um projeto financiado pelo Edital Setorial de Audiovisual 2019, com apoio financeiro do Governo do Estado da Bahia, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda, Fundação Cultural do Estado da Bahia e Secretaria de Cultura da Bahia.

Em breve, lançaremos nosso site e novos boletins e apresentaremos toda a nossa equipe!

Resultados da Pesquisa Impactos da COVID-19 na Economia Criativa

Em março, no começo da pandemia no Brasil, o Observatório da Economia Criativa da Bahia (OBEC-BA) lançou a primeira pesquisa de abrangência nacional sobre os impactos da COVID-19. A pesquisa contou com mais de 2,6 mil respondentes de todo Brasil e levantou dados sobre impactos e percepções de indivíduos e organizações, com o objetivo de contribuir com o debate público e com as futuras ações de apoio aos setores da economia criativa.

Os resultados finais da pesquisa serão apresentados em um evento promovido pelo CPF Sesc SP no dia 18/08, às 17h30, com participação de Gilberto Gil (músico, compositor e ex-ministro da Cultura), Paulo Miguez (docente e vice-reitor da UFBA), Danilo Miranda (diretor do Departamento Regional do Sesc/SP) e Daniele Canedo (docente UFRB e coordenadora do OBEC-BA).

Quando: 18/08, às 17h30
youtube.com/sescsp

Por que se dança um baião? A transversalidade da Cultura e a COVID-19, por Daniele Canedo

Não acendam fogueiras. Não façam aglomerações. O que há para comemorar no meio de uma crise de saúde pública? Tem gente doente! A mensagem da agente da prefeitura de Salvador nos noticiários televisivos parece objetiva. Da mesma forma, parecia óbvio o decreto do Governo do Estado antecipando o São João 2020 para maio. Apesar dos prejuízos econômicos do cancelamento dos festejos juninos, a decisão foi tomada levando em consideração os indicadores de crescimento da pandemia da COVID-19 na Bahia e a necessidade de implantar medidas de redução da disseminação do vírus.

Em maio, a antecipação do feriado parecia ter funcionado: aqui e ali uma fogueira, alguém gritando “Viva São João” da janela de um apartamento, mas poucas aglomerações. Acontece que, com a chegada do período real dos festejos juninos, a tradição cultural falou mais alto do que o decreto governamental. Muitos se contiveram e se adaptaram: ficaram em casa e celebraram com “lives” de forró e caixas enfeitadas com pequenas porções das iguarias juninas. Entretanto, mesmo sem festas públicas, as aglomerações clássicas do período aconteceram: feiras públicas lotadas, filas no Ferry Boat, crescimento do movimento de veículos nas estradas, recorde de denúncias de aglomerações e poluição sonora, tanto em bairros populares quanto em condomínios de alto luxo. O que deu errado?

Para ensaiar uma possível explicação, volto para a questão levantada na entrevista da servidora da prefeitura. “O que há para comemorar?” perguntava ela. Será, pergunto eu, que a celebração de festejos tradicionais, como o São João, depende de um motivo ou estaria mais relacionada com a identificação pessoal com símbolos e ritos de uma determinada cultura? Os festejos juninos representam coisas diferentes para cada pessoa, de acordo com suas referências culturais. Estamos falando de como cada um se sente interpelado (ou não) pelos modos de vida, de alimentação, de vestimenta e de dança que refletem o contexto do interior, da roça, das relações de família. No livro “A Identidade Cultural na Pós-Modernidade”, Stuart Hall defende que o sujeito pós-moderno opta por identidades fluidas que se adaptam e se modificam continuamente de acordo com o contexto e com interesses pessoais e coletivos. De algum modo, há nos festejos juninos elementos identitários que gostamos de ressaltar. São representações simbólicas que conformam a nossa cultura: os nossos jeitos, os nossos gostos, a nossa história, as nossas escolhas. Dançar um baião faz parte do que somos enquanto sujeitos culturais.

Ainda refletindo, convém fazer mais uma pergunta: qual a relação entre cultura e saúde pública? No meio da impressionante crise sanitária que estamos vivendo, a resposta mais óbvia pode estar relacionada com os impactos econômicos causados pela paralisação das atividades de muitos dos mais de cinco milhões de profissionais ocupados nos setores artísticos, culturais e criativos em todo o Brasil. Em uma pesquisa realizada pelo Observatório da Economia Criativa da Bahia (OBEC-BA), estamos buscando mapear os efeitos diretos e indiretos da pandemia para profissionais e organizações com e sem fins lucrativos. A dimensão econômica dos efeitos da crise para os setores culturais precisa de atenção das políticas públicas.

Todavia, neste momento, é preciso focar nossa atenção, mais uma vez, na força da dimensão simbólica da cultura. A antecipação do São João 2020, decretada como política pública para evitar a disseminação do vírus, nos indica a necessidade de pensar a relação entre cultura e saúde pública em uma outra perspectiva: a da transversalidade da cultura. O termo ganhou destaque no Brasil quando Gilberto Gil assumiu a gestão do Ministério da Cultura (hoje extinto). No discurso de posse, realizado em janeiro de 2003, Gil ressaltou a necessidade de uma política cultural capaz de perpassar todo o Governo, em articulação com os outros ministérios. A cultura, segundo o nosso conterrâneo, serviria “como uma espécie de argamassa” para um projeto de desenvolvimento nacional. Desde então, a expressão tornou-se praticamente obrigatória em textos e políticas do campo cultural: a política cultural precisa ser transversal.

Entre o reconhecimento normativo, acadêmico e discursivo, e a aplicabilidade da transversalidade da cultura existe um abismo difícil de transpor. Na prática, as políticas públicas são, em geral, pensadas em caixinhas: saúde, segurança pública, educação, cultura. O caso da antecipação do São João pode ser visto como um exemplo de política pública que deveria ter sido pensada de forma transversal envolvendo também os órgãos estadual e municipal de cultura. Não estou defendendo que a festa deveria ter acontecido normalmente. Eu, pessoalmente, sei o quanto precisamos evitar a disseminação do coronavírus. Todavia, acredito que os poderes públicos poderiam ter priorizado uma campanha de conscientização da população partindo do princípio de que a tradição junina faz parte da identidade e da diversidade da cultura baiana. Se a celebração do São João vai acontecer de todos os modos, como podemos implantar uma política de mitigação das consequências? A ausência dessa discussão denota uma concepção limitada de cultura por parte dos nossos governantes. Os festejos juninos foram apenas o primeiro desafio. Com as perspectivas atuais da curva de crescimento da COVID-19 na Bahia e a proximidade do calendário festivo do verão, que fique a lição: tradições culturais não podem ser canceladas por decreto governamental.

Daniele Canedo é feminista, mãe, capoeirista, docente e pesquisadora na área de Política e Gestão Cultural. Atua como coordenadora de Cultura e Universidade da Pró-Reitoria de Extensão da UFRB e como coordenadora do Observatório da Economia Criativa da Bahia.